Por Daniela Rorato*

Na esquina da minha rua, a Cônego Romeu, no bairro de Setúbal, existe uma barreira a qual quase todos os dias sou submetida. Quando vou fazer caminhadas com meu filho Augusto, enfrentamos esse obstáculo e achei bem adequado falar dele no PorAqui.

Meu filho tem 18 anos e é uma pessoa com deficiência intelectual. Nasceu com a Síndrome de Down e é autista. Ele caminha, contudo tem necessidades sensoriais e é muito disperso, não espia os buracos e nem preciso dizer o quanto tropeça e já caiu por essas calcadas do Recife. Calçadas que são um desafio constante em nossa rotina. Eu caminho em alerta, preciso chegar antes, sinalizar.

A tal barreira é a inexistência de uma rampa de acesso que ligue duas ruas onde carros passam em alta velocidade. Para atravessar, não existe sequer uma faixa de pedestre . No mesmo local, há uma importante parada de ônibus e o fluxo ali é imenso.

Isso também não é novidade pelas calçadas da cidade. Acreditando que muitos já experimentaram essa sensação, preciso dizer que muitas vezes fiz um exercício de empatia e imaginei como seria impossível para uma pessoa com deficiência física ou em cadeira de rodas fazer aquele percurso. Sem a ajuda de outro, não seria possível.

Noventa e nove por cento dos espaços brasileiros são inacessíveis. De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, o Brasil possuía 45,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, correspondendo, naquela época, a 23,9% da população. Multiplicando esse número por três – pois cada ser envolve pelo menos mais dois entes de sua família (mãe, pai ou parente) -, chega-se a um número aproximado da população interessada na temática inclusão social.

Mobilidade urbana + acessibilidade + inclusão social, são as esquinas fundamentais de um triângulo que solucionaria algumas equações injustas em cidades que ainda estão engatinhando. A falta de acessibilidade é uma responsabilidade que a sociedade precisa tomar para si. Não são só as ruas inacessíveis, salvo poucas exceções, nem mesmo os comerciantes pensam em banheiros adaptados para seus clientes.

Dois mil e dezesseis é um ano marcado pela vigência do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13. 146/15) , que, após tramitar por dez anos no Congresso (isso mesmo, dez anos!), impactará a vida de milhões de pessoas que passam pela devida conscientização do que lhes é de direito. Na verdade, nenhum setor de nossa sociedade poderá ficar de fora.

Em um momento difícil para falar de leis ou de política, volto à esquina da minha rua e ao meu exercício de empatia. Do exercício de colocar-se no lugar de outra pessoa, de forma empática, criou-se o conceito de outridade um dos mais importantes no mundo contemporâneo. Outridade é basicamente ser o outro, sentir na pele o que o outro passa.

Uso essa esquina como contraponto para discutir acessibilidade, uma vez que, saindo da rua e do descaso das nossas gestões, até então, além das questões estruturais, a acessibilidade caminha por muitas dimensões e uma delas é a atitudinal.

A quebra de barreiras também impostas por pessoas pode ser um grande começo para essa sociedade inclusiva. Barreiras que impedem a efetiva inclusão da pessoa com deficiência na sociedade. Este pode ser o ponto de partida para a sociedade civil. E, sem dúvida, as esquinas, empatia, reflexão e o assunto em debate promoverão as r-evoluções.

A sociedade civil organizada precisa também ser consciente e empática. Só assim poderá tornar-se ferramenta fundamental na construção de uma cidade mais inclusiva e acessível. E isso também implica todos os paradigmas que envolvem o preconceito.

Sou aquela brasileira que não desiste nunca, o jargão cabe para mim. Acredito que as coisas vão mudar para melhor e que as leis foram construídas para representar e evoluir conceitos necessários. Acessibilidade servirá a todos: idoso, cadeirante, cegos, pessoas com muletas, deficientes intelectuais, carrinhos com bebes e suas mães! Até mesmo você, se torcer um pé e não puder dar um pulo.

Em tempos sombrios e de extrema desordem, só a sociedade civil organizada e consciente poderá exercer a empatia por essas esquinas da vida.

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*Daniela Rorato é empreendedora social. Fundou a In Soluções para a Inclusão Social, empresa pioneira de consultoria para pensar conceitos de inclusão e acessibilidade. É vice-presidente da ONG AMAR – Aliança de Mães e Famílias Raras, que, com parcerias da sociedade civil, atende famílias com doenças raras em condição de vulnerabilidade, buscando maneiras de prover-lhes inclusão de alguma forma. É mãe de Augusto e foi com ele que aprendeu a ter um pouco mais de empatia.