Nós, 23º espetáculo do Grupo Galpão (MG), é, nas palavras do próprio grupo, uma celebração do encontro com Márcio Abreu, da Companhia Brasileira de Teatro (PR), que dirige a montagem. A obra, que ganha sessões dias 23 e 24 de novembro, às 20h30, no Teatro Luiz Mendonça, é ainda uma comemoração da trajetória da companhia, mais incisivamente, uma metáfora acurada do Brasil contemporâneo.

“Márcio deixou claro, desde o primeiro momento, que queria fazer um espetáculo político com o Galpão. Particularmente, nos interessou essa questão da convivência. A partir daí fomos desenvolvendo cenas a partir de improvisos construindo o texto, que foi escrito por mim e por Márcio”, explica o ator e dramaturgo Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão.

Na montagem, um grupo de sete pessoas prepara sua última refeição. Sem deixar claro quem são aquelas pessoas ou como foram parar naquela situação, o grupo mineiro leva para a cena uma reflexão sobre o respeito à individualidade, a força do coletivo e os desdobramentos de comportamentos intolerantes.

Em cena, os atores Teuda Bara, Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia e Paulo André dão vida aos personagens que, de forma indireta, são ecos das vozes contemporâneas. Os conflitos apresentados refletem um cenário de incertezas. Pertencer a um grupo implica compartilhar símbolos, ideias, mas necessariamente, excluiria a contradição, o pensamento crítico?

Ao tocar nessas questões, o Grupo Galpão trata, com humor, de uma das questões mais preocupantes do contemporâneo: a intolerância. A ascensão da direita mais conservadora ao redor do mundo, a agressividade nas discussões, a dificuldade de lidar com o contraditório são reflexos diretos dessa conjuntura.

A trilha sonora, assinada por Felipe Storino, tem papel de destaque. A dramaturgia, na peça, funciona de forma menos explícita e a partir de certas elipses. Não há uma preocupação com começo, meio e fim.

“Não nos interessa definir quem são essas pessoas. Elas podem ser amigas, colegas de trabalho, familiares. O ponto é tratar como essas relações se desenvolvem. Não há muitas referências diretas à realidade, mas reflete muito forte no contexto pelo qual passam o Brasil e o mundo”, reflete.

RETORNO – Assim como a Cia do Latão, o Galpão esteve na primeira edição do Festival Recife do Teatro Nacional, em 1997, e retorna em um momento emblemático para o país, mas também para o festival, que nos últimos três anos sofreu com falta de recursos e vontade política. Este ano, portanto, é também uma tentativa do FRTN de reencontro com suas origens.

A situação dos festivais, como observa Eduardo Moreira, é preocupante, já que são espaços importantes de troca entre os artistas e de circulação de espetáculos que, em geral, não chegariam a determinadas cidades.

“Vivemos um momento ruim e os festivais têm sido afetados. Os festivais têm sido esvaziados e a visão política, pautada pelo lucro, tende a aprofundar esse cenário. Mas esse é também um momento de articulação da classe, de repensar possibilidades e de também, ainda mais fortemente, resistir e protestar”, reforça.

SERVIÇO

Nós, do Grupo Galpão (MG)
Quando: 23 e 24 de novembro, às 20h30
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia)
Classificação: 14 anos
Informações: 3355-9821

As informações são de Márcio Bastos, do blog Terceiro Ato

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