Lembro-me que todos os anos, num certo dia durante o mês de dezembro, os integrantes da minha família acordavam bem cedo e preenchiam até os espaços inexistentes do carro com bagagens, esperanças, uma boa dose de desconforto e sanduíches.

Preciso confessar que os sanduíches certamente eram a parte mais importante dessa equação. Eu ansiava o momento em que a fome nos alcançaria no meio da estrada para poder comê-los. Consigo sentir sua textura úmida e sabor neste exato momento.

Com o carro assim, cheio de sobrevivência, rumávamos para a terra natal dos meus pais e avós para passar o Natal em família. Eram cerca de oito horas de estrada até chegarmos a Aracaju. Eu, como o caçula da família, ia espremido no assento do meio no banco de trás.

Era pequeno, então não via direito a estrada à frente, mas enxergava com muita clareza as diversas tonalidades de verde e cana de açúcar que distraiam meus olhos nas laterais.

Eu, infelizmente, estou aqui

Para minha infelicidade, meu pai sempre antecipava o presente natalino de minha mãe, a fita nova do Roberto Carlos. Sim, naquele tempo o que existia nos carros era toca-fitas.

Eram quase oito horas espremido entre meus irmãos, vendo verdes nauseantes e ouvindo o Rei. Não precisa dizer que cresci com horror de estrada e só consegui voltar a ouvir Roberto Carlos e entender sua genialidade há pouquíssimo tempo.

O importante é que quando chegávamos em Aracaju, a cama estava pronta, o abraço estava quente, o cheiro de perfume dos meus avós estava fresco e o queijo do reino estava aberto à mesa em fartura.

Papai Noel e o peru Sadia terão que me desculpar, mas Natal pra mim tem cara de queijo do reino. Essa coisa ficou tão forte dentro de mim que quando adolescente fui prestigiar a ceia de Natal de um amigo, bebi além do recomendado, e não entendia porque todos me olhavam durante boa parte da festa.

Até que um amigo veio me avisar do ocorrido, minhas sobrancelhas, que já são fartas, estavam completamente amarelas, repletas de queijo do reino. Num súbito de fome e provavelmente saudade de vó, eu peguei o queijo do reino inteiro da mesa principal e segurando-o com as duas mãos me afundei nele.

Meu amigo nunca mais me convidou para sua casa, mas assumo que fui extremamente feliz naquela noite.

Natal demais

Natal tem esse quê de fartura e exagero. Nele cometemos com exímia excelência alguns pecados capitais, come-se demais, bebe-se demais e compra-se demais.

É momento de festa, de celebração e de renovação dos vínculos familiares. É momento de contradição, como tudo que é demasiadamente humano.

Durante essa época natalina ocorre uma forte reivindicação, mesmo que momentânea, dos valores que sustentam nossa condição humana e nossas relações de afeto.

Naquele momento da ceia em família, fica claro que não estamos sozinhos nessa busca de significados que é a vida.

É possível olhar nos olhos dos nossos parentes, nas marcas dos seus rostos e mãos, e lembrar, mesmo que seja só por uma noite, que nossas histórias não existiriam sem as histórias deles.

Ali fica muito claro que se trata de uma história só, trata-se de uma família. Do jeito que ela foi moldada, com suas chagas e conquistas.

Todavia, melhor do que a véspera do Natal é a preparação para a festa. Aprendi com minha mãe, que por sua vez aprendeu com minha avó em Aracaju, que preparar a casa para receber os familiares é, de fato, onde reside a essência basilar dos valores natalinos.

O pão começa a ser feito logo cedo, chama-se quem passar por perto da cozinha para ajudar a manipular aquela massa.

O cheiro do peru assando toma conta do quintal. As taças de cristal estão sendo lavadas e postas à mesa. Há sempre um trabalho coletivo, uma disponibilidade para o abraço num claro ensaio para o perdão.

A hora e a vez de Simone

Neste momento, alguém insistentemente sempre dá um jeito de colocar  “Então é Natal” de Simone para tocar. Isso mesmo, saímos de oito horas ouvindo Roberto Carlos para agora passarmos um dia inteiro ouvindo Simone.

Eu também tenho pena de mim quando me recordo, mas o mais assustador é que atualmente não consigo viver o dia 24 de dezembro sem ouvi-la.

É meu momento mágico de Natal atualmente, ver minha mãe preparar a casa como minha avó fazia e ao visitá-la sorrateiramente colocar no máximo volume Simone para estourar as caixinhas de som bluetooth mais próximas.

Ela para tudo que está fazendo e vem dançar comigo. Engatamos um “Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui”, abrimos um vinho e tenho certeza que, nesse momento, ele desce dos céus, ou do inferno, e vem nos abençoar.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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