Por Ângela Belfort, do Jornal do Commercio

Caldinho de todo tipo, dobradinha, feijoada, pastel dos mais diversos sabores, hambúrguer de picanha com bacon, bolos os mais diversos. Tudo e mais alguma coisa pode-se comprar nas ruas do Recife e de Olinda. A grave crise econômica e o desemprego em alta fizeram pipocar negócios com pequenos investimentos. Para fazer uma renda extra, muitos aproveitam a cozinha de casa, umas mesas, alguns banquinhos de plástico… E está desenhado o cenário de várias ruas, canteiros ou pracinhas, sobretudo nos fins de semana.

O grupo de empreendedores inclui também pessoas que resolveram colocar pequenos trailers em pontos movimentados das cidades. Geralmente, eles produzem pela manhã ou começo da tarde e, no final do dia, vão para os seus pontos de venda. A lógica é simples: mesmo com recessão, crise e desemprego, as pessoas podem até reduzir os gastos, mas não deixam de comer. Nem de beber.

“A crise ajudou muito a comida de rua. O preço é mais baixo do que o de um restaurante. Aqui, com R$ 25 a pessoa consome uma comida caprichada e toma uma cerveja”, conta o dono do trailer Malabar Pastel, Daniel Uchoa, que instalou o seu ponto de venda na Rua Luíz Inácio Pessoa de Melo, em Setúbal. Essa rua é o point de pelo menos cinco pequenos empreendedores que comercializam as comidas que produzem.

Mas o que levou Daniel a abrir um trailer? Formado em sociologia, estava insatisfeito com a remuneração. “Decidi dar uma guinada e iniciar algo que me mantivesse financeiramente. O formato é prático porque vendo em frente à minha casa, no bairro em que conheço muita gente. Um pastel e um refrigerante que vendo saem por R$ 15. Isso era o que eu ganhava por uma hora-aula de sociologia”, conta Daniel.

Ele vende 14 tipos de pastel e agora introduziu os hambúrgueres usando carnes nobres. Ele também promove uma troca de livros na comunidade a cada semestre e, às quartas, contrata uma banda de jazz para tocar ao lado do trailer. Por enquanto, ele está bancando o cachê da banda. Daniel e mais duas pessoas fazem a produção da comida vendida no local. Ele chegou até a alugar uma pequeno espaço no mesmo bairro para a produção por falta de espaço na sua cozinha.

Outra característica desse novo serviço na rua é que muita gente que está produzindo a comida tem curso universitário e fez uma capacitação no Sebrae de boas práticas de segurança alimentar dentro das normas da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). É o caso de Manuela Farias, que enxergou na comida de rua um negócio com menos custos e mais liberdade no horário. Há cinco anos, ela tinha uma loja em Cajueiro, na Zona norte do Recife, na qual vendia bebidas, salgados e caldinhos e tinha duas funcionárias.

“Hoje produzo mais do que quando tinha loja física e administro melhor o meu tempo. Num ponto fixo, os custos de produção são muito altos, como aluguel, energia, água, funcionário, etc.”, conta. Atualmente ela faz produção de salgados para lojas de conveniência e tem uma bicicleta na qual vende caldinhos em eventos e durante o final de semana, quando instala, às vezes, a bike nas imediações do Mercado de Boa Viagem.

Também faz parceria com lojas que vendem cerveja oferecendo os caldinhos. “A crise impactou os negócios como as lanchonetes de conveniência, que fecharam ou diminuíram os pedidos nos últimos oito meses. Só não perdi renda porque iniciei a venda dos caldinhos na bike”, conta Manuela, que é formada em economia, mas nunca exerceu a profissão e trabalha há oito anos com o comércio ligado à alimentação.

O carro-chefe da sua culinária é o caldinho sertanejo, que leva purê de macaxeira com charque desfiada servido com queijo coalho. Tanto Manuela como Daniel são formalizados como Microempreendedor Individual (MEI).

A rua é o cenário ideal para iniciar pequenos negócios informais que dão os seus primeiros passos. É o que ocorreu com a aposentada Angelina Maria Barbosa, que aderiu a ideia da sua filha a administradora Cristiane Barbosa – que atualmente não tem um trabalho formal. Elas fundaram a Cris Bolos para comercializar a guloseima em pedaços, metade ou inteira. “O meu objetivo era ter uma loja, mas vender na rua é mais em conta, porque não pago aluguel e a energia é só a usada na produção”, afirma Cristiane Barbosa.

Complementar a renda doméstica também foi a finalidade inicial da dona de casa Maria da Glória Alves da Silva (foto), que vende pastel, empada e coxinha de fabricação própria próximo ao apartamento em que mora em Setúbal. “Nunca trabalhei na rua formalmente, mas as coisas foram ficando tão apertadas que a gente teve que se virar”, conclui.

SEBRAE DÁ DICAS

Aumentou a quantidade de pessoas que está procurando o Sebrae para ajudar a estruturar um pequeno negócio vendendo comida na rua, segundo a gestora do Projeto de Alimentos e Bebidas do Sebrae Pernambuco, Valéria Rocha.

“Numa crise como essa, as pessoas saem cortando tudo, mas não deixam de comer. Algumas pessoas que frequentavam um restaurante mais caro passaram a frequentar um mais simples. É por isso que os pequenos negócios que envolvem alimentação estão crescendo muito, porque há mercado para todos os bolsos”, resume Valéria. Uma parte significativa desses empreendedores está se formalizando via Microempreendedor Individual (MEI), que tem o custo baixo.

Para atuar no ramo de alimentação, a gestora argumenta que é muito importante o empreendedor se capacitar em segurança alimentar e saber as exigências legais dos órgãos de fiscalização dessa área. “Segurança alimentar é algo muito sério. Se o cliente tem algum problema com a comida, ele não volta mais”, diz. O Sebrae tem uma capacitação de 20 horas em segurança alimentar e boas práticas de manipulação de alimentos reconhecido pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mais informações podem ser obtidas no portal www.sebrae.com.br.

“Também é importante instalar o negócio num espaço privado, no qual o dono do espaço lhe concedeu uma autorização para estar ali”, conta. E, por último, “é bom começar certo para dar certo. Temos consultoria em inovação para deixar o seu negócio mais apresentável”, afirma.

E acrescenta: “as pessoas comem também com os olhos. E, por isso, é importante tirar um tempo para pensar na apresentação do seu produto”, revela. Neste departamento, Damião das Tapiocas, que vende suas iguarias também em Setúbal, não deve a ninguém. Dificilmente um consumidor que o vê preparando as tapiocas deixa de experimentar a especialidade do chef.

O último ensinamento do Sebrae é conhecimento e atitude empreendedora, qualidades fundamentais para o negócio ser bem-sucedido. E, nesse caso, é bom ficar muito atento, porque a concorrência está espalhada em muitas esquinas.

Sugestões de pauta e colaborações em Setúbal? poraqui@jc.com.br ou (81) 3413.6529

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