Existia algo de incompleto naquela casa, algum descuido na pintura talvez, alguma trepidação de máquina escavadeira possivelmente deixou rachaduras, brechas. Por essas brechas era possível observar o lar, nem sempre povoado, é importante frisar.

Muitos momentos ele estava estranhamente repleto de nada. Não havia silêncio e não havia vozes, era essa inconclusão mesmo. Uma casa amontoada de incompletude, incongruências e desconexões.

Reflexões para quem pensa em ‘dar o lavra’ de Recife

Mas essa casa também possuía momentos de quase festa, vozes vorazes, sonhos acumulados em forma de grito e uma boa quantidade de destempero. Argumentações de todos os lados. Gente que preferia se agarrar ao vermelho, pois o sangue das suas feridas se misturavam com a cor da bandeira que já estava colada à pele.

Outros não sabiam muito bem a que cor se apegar, na verdade não tinham apego, só queriam viver suas vidas, e programar a parte das contas que dava para pagar no débito automático.

Havia uma parte dessa trupe que seguia firme em seus objetivos hereditários, sem refletir muito, sem perceber muito, sem escutar absolutamente nada, fortaleciam o comando interno que vinha de gerações, se beneficiar a todo custo. Pois o restante, tratava-se apenas de externalidades.

No miolo dessa casa, havia algo curioso, talvez por erro arquitetônico ou capricho do arquiteto, as dependências da empregada. Perceba que naquela casa não ingressava empregado, apenas empregada. Pois é, a serviçal residia no centro, não no quarto dos fundos.

O amor em tempos de graxa

Era estranho, bem estranho. Mas assim era a casa. E por assim ser, ela suscitava experiências novas, muitas das quais eram genuinamente belas, dignas de transformar positivamente as relações de todos os moradores dali. Outras eram explosivas, traziam o que há de pior no ser humano.

Lembro de um dia espiar por uma brecha alargada e enxergar com mais clareza o ambiente interno do recinto. Flagrei uma moça, não consegui decifrar se era bela ou repugnante, acabara de dar descarga e sair do quarto ao centro. O cheiro fez estremecer minhas narinas e produziu um corte de dois centímetros na minha garganta, ardia.

O restante do dia dentro daquela casa foi de ameaças nem um pouco veladas. Vi um dos integrantes da família abrir uma gaveta com facilidade e de repente empunhar uma arma, percebi que foi por muito pouco que não houve o disparo, mas, felizmente, nada aconteceu.

Sinto-me neste exato cenário agora, a casa chama-se Brasil, a brecha pode ser o Facebook, o WhatsApp ou o velho controle da TV.

Dessa posição incômoda, costas curvadas e pernas dobradas para alcançar a melhor fenda, espreito o futuro e o que vejo pela frente tenho certeza que não é passado, como dizia Millôr Fernandes, mas estranhamente também não é futuro.     

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral.

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