Cidade tem alma? Cidade tem personalidade? Você se vincula com sua cidade como se vincula àquele amigo que, com sorriso nos dentes, lhe tece um elogio e engrandece sua esperança? Recife parece que é vestida desse poder e magia, dessa força essencial a qualquer amizade sincera.

E vamos combinar que, com Recife, não se tem meio termo, ou nos sentimos sugados (e suados), ou caímos fora. Definitivamente essa terra não é para amadores. Aqui se mata demais, mas aqui também se vivem grandes paixões.

Viver em Recife não é fácil, o trânsito corrói, o medo vai tirando um pedaço da gente a cada dia. O abismo social é como uma gastrite crônica vitalícia, machuca lá nas entranhas por mais que não percebamos. Ele nos faz sangrar com a paciência que só o Diabo possui.

Mas quem disse que paixão é algo tranquilo? Paixão machuca e muito, causa úlceras, e venhamos e convenhamos, por isso que é bom. Não me venha com o riso da Monalisa, eu quero é gargalhar e depois quebrar meus joelhos num frevo desajustado que termina em paralelepípedos. Recife causa amor e ódio.

O amor em tempos de graxa

Prazer, Hellcife

E quando pensamos que Recife já esteve no mapa mundial dos fluxos comerciais, que por aqui passou o mundo todo em forma de mercadorias, tivemos os holandeses e portugueses se esbaldando em sangue por nossa causa, nos perguntamos que Recife é este que vivemos agora. É o começo do fim, ou é o fim?

Em alguns momentos, a depressão bem humorada impregnada no apelido “Hellcife” perde toda a graça quando parece que tem mesmo gente que nos troca por Miami.

Sim, Recife tem alma. Sim, Recife tem personalidade. E sua alma é a mesma daquelas moças e moços que carregam alguns penduricalhos de couro e mandingas do mar. Cabelos longos sem muitos cortes. Fala fácil disfarçada de cálida, mas que no fundo não consegue esconder sua personalidade forte e certeira, como a escrita de João Cabral de Melo Neto.

Mas a pior notícia desse texto chega agora, não precisa ter ido muito longe para saber que poucas cidades têm alma, poucas cidades têm nexo e narrativa. E se você tem ao menos um amigo de verdade, sabe que seu vínculo com ele, e também com a cidade onde mora, não se constrói sem esses componentes. Não se constrói com base em frivolidades e em perguntas como ” how is the weather today?”.

Como diz Vinicius de Moraes, “nunca vi amizade nascer em leiteria”. Amizade é feita de angústias e superações compartilhadas, é feita de histórias em comum.

Além disso, vale dizer que desde que o mundo é mundo, este é o único lugar do planeta no qual você não é imigrante. Então, minha amiga e meu amigo, é bom você começar a pensar como será a reciprocidade da amizade do seu filho com esta cidade. Porque, lamento dizer, mas você já foi até as vias de fato com Recife e este lugar não só deixa rastros de paixão, como te engravida mesmo.

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral.

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