Por Adriana Santana*

“Quem sabe faz. Quem não sabe ensina”. Dia desses, li que a frase já clichê, quase domínio público, na verdade tinha autor conhecido. Bernard Shaw decerto deve ter tido seus motivos para colocar a categoria de professor em baixa conta, e o fato de ter sido premiado com um Nobel o autorizava a muitas coisas, entre elas, por que não, satirizar com nossas caras docentes.

Mas, se tivermos um pouco de boa vontade, não será preciso quase nada, para com quem optou pela profissão, podemos reconhecer até um pouco de ranço e injustiça no aforismo. Por exemplo, no momento em que redijo este texto, eu e um grupo de colegas docentes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) estamos, paralelamente às nossas muitas (acredite, são muitas e parecem sem fim) atividades na UFPE, produzindo um programa diário de rádio.

Produzimos, roteirizamos, entrevistamos, editamos e apresentamos o Fora da Curva, projeto que tem como mote ser o espaço midiático em que “a gente fala o que a maioria cala”. Isso poderia até ser suficiente para nos redimir do pensamento de Shaw, já que efetivamente atuamos como jornalistas, além de ensinar centenas de jovens a como ser um deles. Mas somos um pouco mais petulantes e, por que não arriscar dizer, kamikaze do que isso.

Explico. O que leva um grupo de cinco professoras e um professor universitários, com o apoio indispensável de representantes de organizações sociais e uma equipe de estudantes, a, voluntariamente, e sem recursos financeiros extras, produzir cinco programas por semana em meio a tantas obrigações na Universidade e na vida pessoal?

São várias as razões, mas prefiro elencar duas delas apenas. Primeira: cansamos de criticar à exaustão a falta de ética, o descompromisso com o interesse público, as pautas amarradas unicamente a interesses comerciais e políticos, enfim, o mau jornalismo praticado em Pernambuco e no Brasil.

Cansamos não por falta de disposição, mas por ausência de retorno mesmo. Sem enxergar mudanças, decidimos, com o pouco que tínhamos, fazer nossa parte para produzir jornalismo de qualidade. Segunda razão: queríamos fazer jornalismo com qualidade, mas ir além. Dar voz a outros personagens, incluir temas silenciados, poder falar, enfim, daquilo que a maioria cala.

Pode parecer naïve e utópico. Não deixa de ser. Mas após um mês do começo dessa grande aventura, vemos que está sendo possível realizar o jornalismo que a gente defende, praticar o avesso do que a gente critica, de materializar o que há muito estava apenas na esfera da quimera, do sonho, do ideal. 

E, não vou mentir, acrescente-se a tudo isso um prazer extra e inenarrável: o Fora da Curva está desmentindo um Nobel e provando que nós, professoras e professores, ensinamos porque sabemos. Porque fazemos também. E isso não tem preço.

O Fora da Curva é apresentado diariamente, das 11h30 às 12h, na Universitária FM 99.9 MHz e na Universitária AM 820 KHz. É transmitido também por streaming, direto do estúdio, pelo facebook.com/programaforadacurva. O programa nasceu da necessidade de diversificar as abordagens e as vozes na mídia. É coordenado pelo Departamento de Comunicação Social da UFPE, com apoio do Departamento de Sociologia.

Tem parceria com a Marco Zero Conteúdo, Centro de Cultura Luiz Freire, Terral Coletivo, Centro Sabiá, Mirim Brasil e Centro de Mulheres do Cabo. Conta com a participação de estudantes de Rádio, TV e Internet e Jornalismo da UFPE, bem como de técnicos do Laboratório de Imagem e Som (LIS).

Professores que comandam a empreitada: Adriana Santana, Ana Veloso, Bruno Nogueira, Maria Eduarda Rocha, Paula Reis e Yvana Fechine.

*Adriana Santana é jornalista, mestre e doutora em Comunicação. É professora do Departamento de Comunicação Social e coordenadora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco.


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