Com um vestido florido, unhas pintadas de esmalte cintilante e um diadema na cabeça, Lucila Gonçalves Lapa, mais conhecida por Tia Cila pelos seus ex-alunos, é moradora da Várzea há nove décadas. No último dia 3 de maio, completou 91 anos e ganhou festa que fechou a rua onde mora, organizada por ex-alunos, vizinhos e amigos locais cultivados ao longo da vida. A fama no bairro não se fez ao acaso.

A querida Tia Cila, junto à irmã Eunice, comandou durante quatro décadas o Educandário Nossa Senhora do Carmo. Inaugurada em 24 de janeiro de 1960, a escola primária foi a responsável por alfabetizar e educar gerações de varzeanos que lembram do local com carinho, sempre com recordações da dupla de irmãs Nil e Cila – registradas até em livro.

Em Minhas Memórias, Jorge Eugênio Coimbra de Almeida Brennand Filho (nome que Tia Cila faz questão de sempre mencionar completo) recorda: “Eu, meus irmãos e alguns primos estudávamos no Educandário Nossa Senhora do Carmo (as diretoras eram Lucila Gonçalves Lapa – Dona Cila – e Maria Eunice Gonçalves Lapa – Dona Nil). Ele ficava em frente à Praça da Várzea na Rua Azeredo Coutinho, próximo da Igreja da Várzea. Estudamos lá do jardim de infância até a 4ª série primária. Era uma escola pequena, mas muito agradável. Lembro-me de que nos fundos dessa escola havia um campo de futebol de areia de praia. Lá tive bons colegas que nunca esquecerei […] A casa de Dona Cila e de Dona Nil era conjugada com o educandário”.

Tia Cila – uma das oito filhas (e dois filhos) do português Olimpio Gonçalves Lapa com a brasileira Hermelinda da Oliveira Lapa – declara, com uma memória espetacular: “Não saio da Várzea pra nenhum outro lugar. Aqui eu conheço todo mundo e todo mundo me conhece. Não sou boa em fazer novas amizades, mas sou boa em conservar”.

Seu Lapa, Dona Hermelinda e Lucila à direita (Foto: Acervo Pessoal)

Localizado na Rua da Feira (Azeredo Coutinho), o educandário funcionou até 2001, quando fechou devido à alta inadimplência. “Eu fui professora, diretora, coordenadora e psicóloga, fiz de tudo naquela escola”, lembra Cila, que guarda álbuns com fotos do dia a dia da escola e dos alunos, muitas vezes lembrando seus nomes, desde os anos 60.

“Quando eu encontro um na rua, pergunto logo se já se formou. Eu gosto mais de receber um convite de formatura do que de casamento. Primeiro tem que organizar a vida, depois se casa”, revela a senhora que nunca se casou, porque “escolheu demais”, mas ajudou a criar os filhos de inúmeras famílias do bairro.

É também com carinho que Tia Cila fala sobre a irmã Eunice, falecida em novembro de 2013 aos 82 anos, com quem dividia a casa e a escola, onde era conhecida como Tia Nil. “Nil era malcriada e ciumenta”, recorda rindo. “Saudade só é saudade quando não há esperança”, afirma a professora enquanto fala da irmã da vida de quem sente falta todos os dias.

Lucila, à direita, com a irmã Eunice (Foto: Acervo Pessoal)

Enquanto mostra sua coleção de vinis e cantarola marchinhas de Carnaval e sucessos de Ataulfo Alves, Dona Cila relembra os Carnavais de clube que pulou e os forrós que já dançou por aí.

No educandário, organizava as melhores festas de São João com fogueira apagada porque “tinha medo que os meninos se queimassem”. Na Várzea, inspirou o famoso Forró da Tia Cila, organizado pelo Centro de Atividades Domésticas Nossa Senhora do Carmo, na Rua Francisco Lacerda.

Tia Cila exibe em sua parede um Certificado de Reconhecimento que lhe confere um título de “patrimônio educacional”, oferecido à educadora pelo Movimento Cultural da Várzea por sua trajetória e contribuição à riqueza cultural do povo do bairro.

Hoje, os encontros com os ex-alunos se dão nas caminhadas pelo bairro ou nas missas da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, que frequenta com assiduidade. Mas Tia Cila não deixa de ensaiar seus passos por aí. No seu aniversário, viabilizado financeiramente através de um bingo e organizado para mais de 200 pessoas, a festa foi animada por um grupo de forró que tocou a noite toda, relembrando os eventos organizados pela própria professora.

“Acho que, se eu não fosse tão querida pelos meus ex-alunos, não ganhava uma festa tão bonita, né? Passou os 90 anos que eu nem senti”, afirma sorrindo a Tia Cila da Várzea.


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