Já pensou sobre o local que você mais gosta no seu bairro? E aquele que você detesta e acha que tem que melhorar com urgência? Com o intuito de identificar os pontos fortes e fracos da Várzea, um grupo de moradores e moradoras do bairro da Zona Oeste do Recife deu início, de maneira independente, ao Mapeamento Afetivo da Várzea.

A ideia é fazer um levantamento das impressões de quem melhor conhece o bairro – seus moradores – para botar em um mapa os pontos que precisam ser preservados, valorizados ou até melhorados naquele espaço de vivência diária. A ação faz parte de um plano maior do grupo: pensar a Várzea e debater as consequências do Plano Diretor do Recife, que está em revisão este ano.

LEIA TAMBÉM

6 coisas que você não sabia sobre a Várzea

Gratuito: conheça as 27 atrações do Festival de Inverno da Várzea

“Nós nos juntamos para debater as questões do Plano Diretor no bairro e, para isso, vimos que precisamos entender o bairro e expressar o que queremos para ele na linguagem que é usado no planejamento oficial, que é a linguagem de mapa”, explica o arquiteto e urbanista Werther Ferraz, morador do bairro há mais de 30 anos. “Fazer o mapeamento não só técnico, mas também dos afetos e das preferências, é uma forma de participar da revisão do Plano Diretor do Recife.”

(Foto: Werther Ferraz)

Várzea: ame-a e melhore-a

O primeiro encontro do mapeamento aconteceu na manhã do último sábado (18), dentro da programação cultural do Espaço Agroecológico da Várzea, feira que acontece semanalmente na Praça Pinto Dâmaso, a Praça da Várzea.

Com os limites do bairro impressos em uma lona, quem estava pela praça foi convidado a identificar no mapa, com adesivos, os seguintes pontos: onde mora; qual o local preferido no bairro; qual o lugar que menos agrada; que local do bairro deve ser preservado; e que área precisa ser melhorada.

Confira como foi o primeiro encontro para o Mapeamento Afetivo da Várzea:

Morador do bairro há três anos, o antropólogo Fabiano Araújo está participando das discussões sobre o Plano Diretor e foi colaborar com o mapeamento do bairro. “A importância dessa ação reside em dois movimentos: primeiro, na construção de um patrimônio que independe do reconhecimento institucional pela riqueza de experiências das pessoas que vivenciam o bairro e suas memórias, o que estimula a consciência e valor social do lugar onde se mora. O segundo movimento está na iniciativa dos moradores de se aproximarem do poder público, tanto para promover a discussão do plano diretor da cidade como para o atendimento de outras reivindicações”, acredita.

Mapeamento itinerante

Como o bairro da Várzea é enorme e vai desde a BR-101 até o limite com o município de Camaragibe, a ideia é organizar mapeamentos itinerantes para que o maior número de varzeanos possa participar do mapa e pensar, juntos, as questões que afetam o bairro.

“Achei muito criativa a ideia, atraiu olhares curiosos e fez com que os moradores chegassem junto, participando e trocando suas experiências e rotinas com o bairro”, conta Juliana Vidal, moradora do bairro desde que nasceu, há 41 anos.

(Foto: Natália Dantas/PorAqui)

Após mapear a maior quantidade possível de afetos e impressões dos moradores, o grupo vai analisar as informações que o mapa trouxe sobre o bairro. Enquanto o mapa não é concluído, os moradores vão estar presentes no Festival de Inverno da Várzea, nesta sexta (24) e sábado (25), para divulgar um abaixo-assinado solicitando à Prefeitura do Recife a realização de uma audiência do Plano Diretor no bairro.

Para discutir o Plano Diretor do Recife e pensar novas ações para o bairro, o grupo se reúne regularmente às quintas-feiras, a partir das 19h, no salão paroquial que fica no pátio da igreja da Várzea (R. Francisco Lacerda ). “Convidamos todos a participar. Basta aparecer no local e no horário indicados e procurar por mim ou por Bernardo Weinstein, Paulo Figueiredo ou Juliana Vidal”, reforça Werther Ferraz.

Plano Diretor do Recife

Instituído pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado pelo Congresso Nacional em 2001, através da lei Nº 10257/2001, o plano diretor é um planejamento fundamental para garantir o crescimento ordenado dos municípios.

O Estatuto das Cidades, como é conhecida a lei de 2001, determina que toda cidade com mais de 20 mil habitantes tenha um plano diretor que deve ser revisado a cada 10 anos – tempo no qual inúmeras mudanças podem acontecer nos municípios. Com foco na qualidade de vida, o planejamento deve estabelecer como e para onde as cidades devem crescer. O plano é feito por especialistas em várias áreas – urbanização, meio ambiente, saúde, educação e, também, pela população, que pode e deve participar através de audiências públicas, fóruns e de iniciativas organizadas como a que está sendo feita pelos moradores da Várzea.

No Recife, o último plano é de 2008. Passados 10 anos, o novo Plano Diretor do Recife, que está sendo revisado, deve ser enviado à Câmara Municipal para aprovação até o final deste ano.